terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Amor de pai e governo cidadão levam apps do Brasil a tentar prêmio da ONU

O amor de um pai pela filha com paralisia cerebral e o desejo de empreendedores de ampliar a participação do cidadão nas decisões do governo deram origem a aplicativos para smartphone e tablet que podem ser escolhidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) como os melhores do mundo. Ao lado do “Sistema Ambiental Paulista”, do governo do estado de São Paulo, “Livox” e “Colab.re” estão entre os 40 apps apontados pela cúpula mundial como os mais relevantes para o mundo entre 2014 e 2015.
Carlos Edmar Pereira, criador do Livox, ao lado da esposa Aline e da filha Clara, que possui paralisia cerebral e foi inspiração para o aplicativo (Foto: Divulgação/Livox)
Carlos Edmar Pereira, criador do Livox, ao lado da esposa Aline e da filha Clara, que possui paralisia cerebral e foi inspiração para o aplicativo (Foto: Divulgação/Livox)
O prêmio reúne cinco finalistas em cada uma das oito categorias, que vão desde aprendizado e educação a entretenimento e estilo de vida. Em sua terceira edição, essa é a que mais reúne concorrentes brasileiros. Para chegar à final, os app tiveram antes que ser eleitos via votação popular em uma seletiva nacional. Depois, foram indicados os melhores em suas categorias dentre 178 outros apps indicados por cada país membro da ONU.
Amor de pai
O Livox é um serviço de comunicação para pessoas que não conseguem falar por terem algum tipo de deficiência física. Foi desenvolvido sob demanda por um pai com um desejo. “Sou pai de uma menina de 7 anos de idade com paralisia cerebral devido a um erro médico. Assim como minha filha, 15 milhões de brasileiros não falam. Aí eu fui em busca de uma alternativa para poder me comunicar com minha filha. Não tinha nada em português, então resolvi fazer alguma coisa”, conta Carlos Edmar Pereira, criador do programa e pai de Clara.
Antes de colocar a mão na massa, o analista de sistemas pediu auxílio a desenvolvedores internacionais, que não toparam ajudar. Não era a primeira vez que Pereira se desdobrava para dar mais autonomia à filha. A criação do app, há quatro, anos ocorreu no momento em que ele acabara de abrir uma clínica de fisioterapia no Recife (PE), da qual ainda é diretor, para tratar a menina. Para colocar o projeto de pé, convenceu investidores estrangeiros, contratou funcionários e montou o espaço do zero. Para equipar o espaço, trouxe de navio um contêiner com duas toneladas em aparelhos médicos.
Faltava algo, porém. “Eu pensei: ‘Legal, minha filha já está boa, fazendo terapia em um lugar legal’. Mas depois eu vi minha filha querendo se comunicar.” Antes do app, se comunicar com a filha era trabalhoso. “Se ela queria um iogurte, eu tinha que tirar uma foto, recortar e colar num fichário. Só que o fichário foi ficando enorme, né?” O “Livox” resolveu a questão ao exibir um catálogo de “falas”, ditas em voz alta quando selecionadas pela menina. Algoritmos adaptam o uso para os diferentes tipos de deficiência.
O empreendedor conta duplamente orgulhoso que a menina já usa o app para fazer trabalhos da escola, sem os quais não seria avaliada como os outros alunos. Depois de dar “voz” a Clara, o app já atende a 10 mil usuários. Quinze cidades já adquiriram o Livox para distribuir em suas redes de assistência. Além de ser usado em muitas unidades da Apae, o app é ferramenta em um estudo científico na área de cabeça e pescoço, conduzido pelo Hospital das Clínicas, em São Paulo, o maior da América Latina.
Cidadão no poder
Indicado entre os melhores apps de governo móvel e participação, o “Colab.re” também já é usado pelo poder público. A plataforma funciona como um SAC para instalações públicas. Recebe, por exemplo, de reclamações sobre buracos na rua a sugestões para mudar a direção de uma rua. São 40 as prefeituras que já recorrem ao app para isso.
Desde dezembro, a Secretaria de Aviação Civil, vinculada à Presidência da República, recebe colaborações de passageiros sobre os aeroportos Galeão e Santos Dumont, no Rio, Guarulhos, em São Paulo, e Juscelino Kubitschek, em Brasília. “O nosso foco é conectar o cidadão com o poder público de forma geral”, diz Gustavo Maia, cofundador do app. Após estabelecer nas cidades brasileiras canais de governo cidadão, o “Colab.re” em breve chegará ao campo. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Inca) já fechou parceria para receber propostas e reclamações de cidadãos no meio rural.
Os dois já foram premiados. Enquanto o “Livox” foi escolhido a inovação tecnológica de maior impacto no mundo pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em 2014, o “Colab.re” foi eleito o melhor app urbano do mundo pelo concurso AppMyCity, em 2013.
Natureza
Terceiro brasileiro da lista, o “Sistema Ambiental Paulista” mostra as localizações de todos os parques no estado de São Paulo, bem como aponta as condições de qualidade do ar e das praias paulistas. A votação popular termina nesta segunda-feira (26). O resultado é um dos critérios de avaliação da júri em Abu Dhabi no começo de fevereiro. Para votar, basta acessar o site do concurso (Veja aqui) e escolher o melhor app.

Nenhum comentário:

Postar um comentário