quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Casal 'saltou' na fila de adoção ao escolher criança com Síndrome de Down

Colocado para a adoção pela mãe, moradora de Taquari que não tinha condições de criá-lo, Théo estava prestes a ser levado por assistentes sociais da comarca da cidade
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O único medo que Cíntia tem é que o menino sofra bullying. Ela diz tratá-lo da mesma forma que seus filhos anteriores
Sul21 – Em 12 de janeiro de 2015, a enfermeira Cíntia Fleck voltou de férias pela manhã pronta para reassumir seu trabalho na UTI neonatal do Hospital Conceição. Ali, encontrou um menino nascido 15 dias antes, no final de dezembro, que recebia tratamento na instituição, mas deveria receber alta no mesmo dia. Colocado para a adoção pela mãe, moradora de Taquari (RS) que não tinha condições de criá-lo, estava prestes a ser levado por assistentes sociais da comarca da cidade.
“Eu não deixei. Comecei a chorar e disse que não”, conta Cíntia. Naquele momento, tendo visto o menino apenas por alguns momentos, ela já sabia que queria adotá-lo. “Quando eu cheguei na sala para trabalhar, me envolvi com ele. Foi estranho. Trabalho há muito tempo no hospital, mas aquele dia foi diferente. Antes de iniciar o plantão, eu me sentei ao lado dele e conversei com ele. Era bem magrinho”.
Inicialmente, Cíntia nem tinha percebido que o menino tinha Síndrome de Down. Foi informada pelas assistentes sociais, mas diz que isso não mudou nada. Ainda não eram nem 10h daquela manhã quando ela ligou para Luciano. “Ó amor, estou com nosso filho nos braços”, disse. “Como assim?”, questionou ele. “Só que ele tem um probleminha. Tem Síndrome de Down”, alertou ela. “Não dá nada”, retrucou o marido. Na sequência, a enfermeira já estava encaminhando a Luciano as fotos do futuro filho deles.
No mesmo dia, deram início ao trâmite. No dia seguinte, conseguiram uma audiência na Comarca de Taquari, cidade de origem da mãe biológica de Théo. Como mais ninguém que estava na frente do casal na lista do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) tinha manifestado em seu perfil interesse em adotar uma criança com Down, saíram de lá com a guarda do menino.
Eram 15h30 quando Cíntia ligou para o marido dizendo: “Amor, a guarda é nossa”. “Dizem que ele sapateava no escritório”, relembra. “Foi ali que a ficha caiu”, conta Luciano. Ele já era pai.
O processo só teve essa velocidade porque Cíntia e Luciano pularam na frente de muita gente. O motivo para isso é justamente terem escolhido adotar uma criança com Síndrome de Down.
Como funciona o processo de adoção
Existe uma série de passos que os pretendentes devem cumprir para se habilitar à adoção. O primeiro deles é procurar o Juizado da Infância e Juventude da comarca onde moram e preencher um formulário manifestando a intenção e com informações pessoais. Em seguida, devem juntar documentos exigidos pelo ECA, participar de avaliação psicossocial, etapa na qual assistentes sociais e psicólogos determinarão se estão prontos para a adoção e quando poderão definir o perfil desejado, e acompanhar cursos de preparação com informações jurídicas, emocionais, etc. Ao fim desse processo, que pode levar até oito meses em Porto Alegre, o juiz decide se os pretendentes estão habilitados ou não para adoção.
“Tem que ser feita essa avaliação, tem que ter esse curso de preparação, porque é uma decisão muito importante e de muita responsabilidade. o Ministério Público tem que ter seu tempo para analisar e o magistrado o seu [tempo] para decidir. E, habilitada a pessoa, ela vai para o Cadastro Nacional de Adoção. Ou seja, entra na fila”, afirma Andréa Rezende Russo, juíza da Coordenadoria Estadual da Infância e Juventude do Estado.
Uma vez inscritos no CNA, os pretendentes devem aguardar por uma ligação dos responsáveis pelo cadastro. Eles são chamados, por ordem de inscrição, de acordo com o perfil escolhido. Quem definiu o interesse por adotar crianças saudáveis, sem irmãos, de 0 a 3 anos, o perfil mais desejado, poderá esperar anos até chegar a sua vez na fila. “É o perfil desejado. Se não é um filho biológico, que o adotivo chegue nas mesmas condições, que ele possa criar, passar os valores. Se compreende a intenção de adotar uma criança pequena. Porém, quando se faz a avaliação, o curso de preparação, se trabalha a possibilidade de ampliar esse perfil”, afirma Russo.
De acordo com o juiz Marcelo Mairon, 2ª Vara da Infância e da Juventude de Porto Alegre, no 1º semestre deste ano, 1 mil crianças e adolescentes estavam aptas para serem adotadas. Entre elas, 350 já tinham iniciado o processo de vinculação com pretendentes ou a Justiça já tinha encontrado no Cadastro Único um casal ou uma pessoa com o perfil aprovado. “Desses, a grande maioria são crianças de até 3 anos. Dos outros 650 que não estavam vinculados, mais de 90% tinham 10 anos de idade ou mais”, afirma o juiz, acrescentando ainda que menos de 2% dos habilitados no cadastro colocam no perfil desejado crianças e adolescentes de 10 anos ou mais. “A gente tem um descompasso entre o perfil da criança e adolescente existente e aquele desejado”, complementa.
Quem olha de fora, pode até achar desumano os pretendentes poderem escolher um perfil exato para seus futuros filhos, que, além da idade, inclua cor de pele, cabelo, se tem alguma doença crônica ou não, entre outras características. “Por que se pergunta o perfil? Porque nem todas as pessoas estão em condições e preparadas para receber um adolescente, por exemplo”, explica Andréa Russo.
Há ainda os casos que se configuram o pior dos mundos para a adoção: quando não há adaptação entre pais adotivos e seus novos filhos. “Nós temos casos de devolução, o que é algo muito triste, porque causa problemas psicológicos na criança e no adolescente devolvido. Por isso, é grande a responsabilidade que se tem no sentido de primeiro se verificar se a pessoa realmente tem condições de adotar uma criança ou adolescente e também do próprio acompanhamento desse estágio de convivência. Essas situações infelizmente acontecem e temos que evitar ao máximo com uma boa preparação destas pessoas”, pondera a juíza.
Para Angelita Rebelo de Camargo, assistente social da Corregedoria Geral de Justiça do RS, os casos de “devolução” decorrem justamente de uma falta de preparação adequada. “Na maioria dos casos, há uma falta de preparação dos adultos para aquela relação, por isso temos trabalhado na melhoria da capacitação”, afirma. “Nem sempre o desejo de ajudar vai ser suficiente para enfrentar as questões que vão aparecer no dia a dia”, afirma.
Mas o que leva os postulantes à adoção a desejarem a suspensão do processo? “São questões emocionais. É, daqui a pouco, tu idealizar demais uma relação que acaba não sendo exatamente como tu imaginou. Dependendo da capacidade emocional do sujeito, ele não suporta isso. Ele começa a criar uma barreira com aquela criança e adolescente, que nunca satisfaz as expectativas desse adulto”, explica.
Ela salienta que pessoas que desejam adotar precisam ter uma elevada tolerância a frustração, não apenas terem se sensibilizado com “alguma história triste”. “Às vezes se sensibilizou com aquela história, achou a história do adolescente muito triste e resolveu ajudar”.
Ansiedade e mudanças de planos
Apesar da velocidade na qual o processo deles andou, Luciano e Cíntia passaram por todas as etapas preparatórias. Ela já tinha dois filhos biológicos de um casamento anterior, Matheus, 22, e Luíza, 16. Ele, ainda não, mas desejava ser pai. Como Cíntia tinha passado por uma cirurgia de ligadura de trompas, o casal primeiro tentou reverter o processo e realizar fertilização in vitro. Mas, não obtiveram sucesso. Resolveram então adotar.
Era julho de 2014 quando procuram a Justiça para iniciar no processo de habilitação. Passaram por seis encontros com psicólogos e assistentes sociais e, posteriormente, por mais três encontros em que receberam videoaulas para preparação emocional e também sobre as exigência jurídicas. “Eu, na verdade, estava achando meio chato. Seis consultas com psicólogos? Quando a gente quer ter um filho engravida e deu”, diz Cíntia.
Concluído o processo, receberam a habilitação em outubro do mesmo ano. O perfil desejado inicialmente era bem diferente do que viriam a encontrar em Théo. “A gente gente optou por uma menina de até três anos, indiferente da cor”, conta Luciano. “Mas a gente não queria doenças crônicas, isso foi bem esclarecido”, complementa Cíntia. “Aí eu dei de cara com o nosso Théozinho”.
O que leva alguém a adotar uma criança com Síndrome de Down? A pergunta pode parecer cruel, mas é necessária diante do fato de que a maioria esmagadora dos pretendentes inscritos no Cadastro Nacional fazem questão de pontuar que procuram uma criança ou adolescente saudável. Esse era o caso, inclusive, de Cíntia e Luciano.
Sem hipocrisia, Cíntia diz que talvez nunca tivessem mudado o perfil desejado caso não tivesse tido contato com Théo no hospital. “Se alguém ligasse e dissesse: ‘ó, chegou o teu bebê, ele tem Síndrome de Down. Quer adotar?’ Talvez eu dissesse que não”, afirma.
Para ela, porém, o preconceito  começa na família. “Ainda tem pais que se sentem tristes. A gente fez a escolha de ter um filho assim. Na verdade escolhi, entre aspas, porque eu me apaixonei por ele”, afirma.
O único medo que Cíntia ainda tem é que o menino possa sofrer bullying. Do contrário, diz tratá-lo da mesma forma que seus filhos anteriores. “A gente oferece tudo para o Théo. Todas as oportunidades que a gente pode, a gente oferece, porque daí o aprender é dele, não porque ele não teve contato”.
O amor à primeira vista levou Cíntia a superar os temores que poderia ter e também os “alertas” que recebeu de colegas do hospital. “No momento em que eu conheci o Théo, o médico de plantão me puxou e me alertou: ‘Tu sabe o que é uma Síndrome de Down? Eu não recomendaria ninguém a adotar’. Ele disse. Muito sério, olhando no meu olho. Aquilo me irritou muito”.
Também foi chamada de “louca” e questionada sobre o que o menino poderia lhe dar em troca: “Eu disse que o que eu espero ele vai poder me dar: muito amor e carinho”, afirma.
E assim foi. Com uma alegria que contagia a todos que o conhecem, Théo virou o xodó da família, se dando muito bem com os irmãos. “Ele é muito carinhoso, sempre quer abraçar e beijar”, diz Cíntia. “A minha filha de 16 anos uma vez disse para mim: ‘eu queria ter um filho com Síndrome de Down, mãe’. Aquilo me assustou no início, mas ao mesmo tempo eu pensei que tenho um filho assim e é tão bom”.
Deixe o amor te surpreender
O fato de terem aberto o coração para uma adoção fora do comum fez de Luciano e Cíntia, e do pequeno Théo, uma das estrelas da campanha “Deixe o Amor te Surpreender”, promovida pelo Tribunal de Justiça do RS.
Para a juíza Andréa Russo, o foco da campanha e do trabalho do juizado é justamente “oportunizar uma reflexão” para que os pretendentes a adoção possam flexibilizar o perfil de crianças e adolescentes procurados. Além disso, ela afirma que as assistentes sociais do TJ em Porto Alegre estão iniciando um projeto piloto para, naqueles casos em que não há combinação perfeita entre os moradores de abrigos e inscritos no CNA, se possa buscar pretendentes com perfil aproximado. “Às vezes, o pretendente quer uma criança de até cinco anos. Então, quem sabe com seis?”.
A assistente social Angelita explica que, a partir do momento que ocorre essa flexibilização, inicia-se então o processo de busca do consentimento dos menores. “No momento em que alguém se dispõe a flexibilizar o seu perfil e conhecê-lo, a gente vai pegar esse interesse do adulto e buscar o consentimento do adolescente e do pré-adolescente. Falando que encontramos uma pessoa, que ela está muito interessada em conhecê-lo, e propõe o encontro”, explica.
Em 2015, o Juizado da Infância e da Juventude do RS emitiu 889 sentenças de adoção. Até o final do mês de outubro deste ano, já tinham sido emitidas 730 sentença. Segundo dados da última quarta-feira (16), 598 crianças aguardavam adoção no RS, cerca de 12% das 4.860 habilitadas em todo o Brasil.

Cão salva criança com síndrome de Down que estava presa na máquina de secar

O animal viu o menino dentro da máquina e logo foi até sua tutora pedir ajuda. A mulher percebeu que tinha algo errado, seguiu o cão e retirou o filho da secadora

O cachorro Teddy, uma mistura de Cocker Spaniel com Poodle, está sendo considerado um verdadeiro herói por sua família.
Teddy ajudou a salvar a vida do filho mais novo de seus tutores. O menino, que tem cinco anos de idade e possui síndrome de Down, ficou preso sozinho dentro da máquina de secar roupas.
O cão viu o momento em que o menino ficou preso na máquina e foi chamar sua tutora. (Foto: Reprodução / Extra Online)
O cão viu o momento em que o menino ficou preso na máquina e foi chamar sua tutora. (Foto: Reprodução / Extra Online)
O cão viu no momento em que a máquina ligou com o menino dentro e Riley Gedge-Duffy começou a rodar no aparelho. Teddy correu para o andar de cima da casa, onde estava sua tutora, e começou a latir de forma insistente para a mulher, que logo percebeu que havia algo de errado e seguiu o cachorro.
Ao descer, a mulher viu seu filho mais velho assistindo televisão sozinho e perguntou para Teddy onde estava Riley. O cão então voltou a latir forte e corria em direção à secadora de roupa.
O menino sofreu queimaduras em seus braços e algumas contusões na cabeça, mas já está bem melhor. (Foto: Reprodução / Aaron Duffy / PA)
Riley sofreu queimaduras em seus braços e algumas contusões na cabeça, mas já está bem melhor. (Foto: Reprodução / Aaron Duffy / PA)
Como estava escuro, não dava para ver o menino dentro da máquina, mas a mulher conseguiu escutar um barulho que vinha da secadora e viu o iPad da criança rodando e girando lá dentro.
A mulher imediatamente retirou Riley de dentro da secadora e começou a derramar água fria nele. Depois o menino foi levado para o chuveiro pelo pai, que ligou em seguida para a emergência pedindo ajuda sobre o que fazer.
Riley sofreu queimaduras em seus braços e algumas contusões na cabeça e foi levado para o hospital, onde fez uma série de exames. Hoje o menino está bem melhor, mas a família não gosta nem de imaginar o que mais poderia ter acontecido caso o cão não estivesse em casa naquele momento.
Teddy também ajudou a evitar um incêndio na casa da família quando percebeu um carregador de celular pegando fogo. (Foto: Reprodução / Aaron Duffy / PA)
Teddy também ajudou a evitar um incêndio na casa da família quando percebeu um carregador de celular pegando fogo. (Foto: Reprodução / Aaron Duffy / PA)
Essa foi a segunda vez que o cão Teddy alertou a família de um perigo na casa. Cerca de dois meses antes do acidente com a secadora, o animal foi quem percebeu e alertou a todos quando um carregador de telefone conectado na tomada começou a pegar fogo.
“Teddy é um cão brilhante, é incrível”, disse Aaron Duffy, tutor do cachorro e pai de Riley.

Primeiro músico com síndrome de down a gravar CD

Através de uma produção inédita, o mineiro Eduardo Gontijo, mais conhecido como Dudu do Cavaco, conquista recorde brasileiro

Exibindo talento e com muita dedicação, o mineiro de Belo Horizonte, Eduardo Gontijo, mais conhecido como Dudu do Cavaco, entra para o RankBrasil em 2016 pelo recorde de Primeiro músico com síndrome de down a gravar CD, lançado em 20 de novembro.

Com 10 músicas no estilo samba, o CD conta com a participação de grandes artistas de Minas Gerais, como Marco Tulio Lara (Jota Quest), Hudson Brasil, Thiago Delegado, Aline Calixto, Zé da Guiomar, Quarteto de Orquestra e Grupo Trêm dos Onze, o qual o recordista também é um dos integrantes.
Outras canções o artista tocou com a sua própria banda composta pelos músicos Bernardo Brito (teclado), Bill Lucas, (percussão), Felipe Fantoni (baixo), Helton Lima (bateria) e Márcio Brant (violão). Marco para a música popular brasileira, Dudu do Cavaco Convida é uma produção inédita realizada pelo Estúdio NaTrilha Produções, com direção geral de Felipe Fantoni e Marcio Brant.
De acordo com Dudu, que tem 26 anos de idade, gravar um CD sempre foi um sonho. “Primeiro gravei um DVD com minha banda, depois surgiu a ideia de gravar um CD com convidados”, revela. Ele conta que a principal dificuldade foi conseguir apoio. “Muitas pessoas duvidaram, mas com muito esforço e treino conseguimos”, destaca.
O trabalho demorou praticamente um ano, entre ensaios e gravações. “Este CD significa um sonho realizado, uma alegria enorme. É mais um passo para minha carreira: chorei quando vi o CD finalizado”, comenta o recordista. O mineiro diz que ficou muito feliz com o reconhecimento do RankBrasil. “A música é tudo na minha vida e toco com muita emoção. Espero poder inspirar mais pessoas”.
Pelo recorde, ele agradece a sua família, em especial ao irmão Leonardo Gontijo por toda ajuda. “Também agradeço aos músicos que me incentivaram, a minha banda e a todos os convidados”. O CD Dudu do Cavaco Convida pode ser encontrado nas palestras e shows do Dudu do Cavaco e de seu irmão e parceiro Leonardo.
Carreira e dificuldades
O recordista começou a carreira artística precocemente. Desde bebê já participava das rodas de samba da família, tomando gosto pela música. Aos seis anos foi modelo, sempre com um pandeiro na mão, em um desfile de modas realizado em um shopping de Belo Horizonte.
Conforme Dudu, ele foi bastante estimulado pelos primos, principalmente o Igor, e por seus tios, em especial o Maurício. “Hoje toco sete instrumentos (cavaco, banjo, pandeiro, repique, ganzá, tamborim e surdo). O mineiro aprendeu a tocar cavaco primeiramente observando seu primo Igor. “Depois fiz aulas de música com o professor Hudson Brasil, que me ensinou muito. Atualmente estudo com ele e com o professor Pablo Leite”.

Marco para a música popular brasileira, Dudu do Cavaco Convida é uma produção inédita realizada pelo Estúdio NaTrilha Produções/ Foto: Arquivo Recordista
Além de tocar cavaco, o mineiro gosta de escutar músicas, ministrar palestras, dançar, ir ao cinema e participar de shows. “Também faço aula de zumba, dança e capoeira”, conta. Apesar de levar uma vida normal, Dudu comenta sobre as dificuldades de pessoas com síndrome de down. “Tem gente que olha diferente, mas cada dia vamos conquistando mais espaço e mostrando que cada ser é único”.
Ele acredita que este recorde vai servir como inspiração para outras pessoas lutarem por seus sonhos. “Muita gente me parabeniza e pelo exemplo muitas famílias colocam seus filhos em aulas de música. É muito bom poder ajudar e inspirar as pessoas”, enfatiza.
Para aqueles que também possuem a síndrome de down, Dudu do Cavaco deixa seu recado: “Devemos lutar pelos nossos sonhos e colocar muito amor em nossas ações. Quando estou tocando, coloco a minha emoção no cavaquinho e no cavaquinho envio para a plateia”, finaliza.
Instituto Mano Down
Há mais de seis anos nasceu o Instituto Mano Down, projeto de Dudu do Cavaco e Leonardo Gontijo. Formalizado juridicamente em 2015, o objetivo é oferecer às pessoas com down oportunidades de serem protagonistas de suas histórias.
Através do Instituto, o músico recordista se apresenta e conta sua experiência em palestras de temas variados, entre ‘Diversidade e crescimento pessoal’, ‘Superação de desafios’, ‘Inclusão’, ‘Disciplina e perseverança’, e ‘Amor como grande motivador’. Mais informações sobre o projeto podem ser obtidas no site Mano Down.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

‘O Filho Eterno’ é para chorar




O Filho Eterno, longa-metragem que estreia nesta quinta-feira, vem acompanhado de uma dupla expectativa. Por um lado, por tratar de um tema raro no cinema, a Síndrome de Down. Por outro, por levar para a tela um dos livros mais elogiados e premiados da literatura brasileira dos últimos anos. O romance de mesmo nome do catarinense Cristóvão Tezza, lançado pela Record em 2007, arrebataria críticas positivas e todos os principais prêmios no ano seguinte: o Jabuti, o Prêmio São Paulo de Literatura e o Portugal Telecom. No primeiro ponto, o filme se mostra acertado por renunciar ao sensacionalismo em prol de uma visão realista da síndrome. No segundo, porém, ele falha. O Filho Eterno se enfraquece na conversão para o cinema, especialmente por deixar de lado as digressões que dão vigor ao livro.
É um longa, como o romance, de fazer chorar, o que não necessariamente tem a ver com sensacionalismo. Ambos começam quando a bolsa da mãe estoura e o pai a leva, todo excitado com a chegada do primeiro filho, à maternidade. A descoberta, logo depois do nascimento, de que o filho é portador de uma síndrome que o acompanhará para o resto da vida e limitará as suas capacidades intelectuais, é um baque para o pai, que, assim como a mãe, não tem nome no romance. É preciso ter déficit de empatia para não partilhar do sofrimento do personagem. Mesmo quando, a partir daí, Tezza explora sem filtro nem pudor a dor e as fantasias de um pai que chega a torcer para que o filho tenha um sério problema cardíaco, comum a portadores da síndrome, e morra logo, deixando-o novamente livre.
É justamente por desperdiçar esse material que o filme se desidrata — não a fantasia da morte precoce, esta está lá, mas muito fica de fora. É verdade que é difícil injetar elongações em um filme, mas o fato é que a história padece desse corte. O próprio livro perde força da metade para o fim, quando as divagações são substituídas pelas memórias do pai, que lembra o período em que morou em Portugal, a temporada em que foi clandestino na Alemanha, a adolescência e a juventude regadas a álcool e a leituras socialistas. No filme, então, a debilidade da troca é maior. Aqui, o pai, batizado de Beto (o humorista Marcos Vera muito bem em um papel dramático), não apenas tem dúvidas, angústias ou pensamentos recrimináveis em relação ao filho (o ótimo Pedro Vinicius). Sua relação com a mãe, que no romance mal aparece e aqui se chama Claudia (a sempre boa Debora Falabella) ganha uma trama, como para manter o espectador atento ao que se desenrola na tela: o filho com Down os põe em conflito, Beto é egoísta, grosseiro e mal humorado, além de vaidoso, bebe todos os dias fora de casa e trai a esposa.

O distanciamento tomado pelo filme em relação ao livro foi uma escolha do diretor, Paulo Machline, dos longas Natimorto, adaptação do romance de Lourenço Mutarelli, e Trinta, a cinebiografia do carnavalesco Joãozinho Trinta estrelada por Matheus Nachtergaele. Sua ideia, conta, era tornar a história mais “acessível” para o grande público. “O grande desafio para adaptar um livro tão importante era humanizar a história. Sair da alta literatura para um filme que tivesse uma acessibilidade maior, para que as pessoas se vissem”, diz.
Tezza, segundo Machline, deu toda a liberdade para que ele adaptasse o livro da forma que quisesse. “Tive algumas conversas com o Cristóvão e quis saber quais eram as expectativas dele. Afinal, o autor às vezes fica frustrado e eu não queria que isso acontecesse. Ele me deu total liberdade. ‘O livro é meu, e o filme é seu.’ Isso fez com que a gente escolhesse o caminho de uma livre adaptação. O filme tem elementos que não estão no livro, como o avô, a mãe da criança.”
O plano é compreensível. O cinema pressupõe um investimento alto e é a venda de ingressos que ajuda a pagar esse investimento. Não deixa de ser uma pena, porém, que se desperdice um bom material.