quinta-feira, 4 de junho de 2015

Brincar de corpo inteiro é substituir a televisão, o videogame e o computador


As crianças vivem em uma sociedade que está em constantes e profundas transformações. As mudanças sociais fazem com que novos valores surjam em detrimento de outros que se configuram para responder às necessidades dos diferentes grupos. Vale ressaltar que quando falamos em crianças, as intuições, setores, segmentos e grupos sociais devemos compreender uma nova (re)configuração para considerarmos nas discussões sobre a importância da infância.
Reconhecer a criança cidadã, como sujeito de direitos, e a infância como uma categoria social, é desenvolver ações que efetivem aquilo que a lei assegura, em especial o desenvolvimento de políticas públicas para o direito ao brincar. O artigo 227 da Constituição Federal de 1988 e o artigo 16 do Estatuto da Criança e Adolescente também trazem em seu escopo a documentação da garantia dos direitos da criança, dentre eles o direito ao brincar.
A primeira normativa que atribui direito às crianças e adolescentes nasce com a Declaração de Genebra de 1924, documento no qual é assegurado à crianças e adolescentes o direito à proteção. Essa normativa é ampliada na Declaração Universal dos Direitos da Criança (DUDC) de 1959. O artigo 31 da DUDC fundamenta, reconhecidamente enquanto direito, o brincar. Porém a consciência sobre esse direito precisa ser ampliada por meio de propostas que qualifiquem o processo de desenvolvimento da criança e o fortalecimento das ações sociais, para que ocorram profundas mudanças nas políticas públicas, no contato com a natureza e na segurança das crianças para que as promoções de seus direitos tenham investimentos adequados à sua execução.
Ao mencionarmos os adultos, relembramos que o papel da família e as mudanças em sua configuração, trouxeram novos papéis para os atores sobre as questões a serem pensadas tanto pela família, quanto pela sociedade. A criança que antes tinha tempo, liberdade e espaços variados para brincar, agora passa a ocupar, cada vez mais cedo, um lugar fixo e institucionalizado, onde passa a maioria do seu tempo. Por ser institucionalizado esse espaço tem como premissa o papel de cuidar e ensinar. Por outro lado, algumas famílias substituem a falta de tempo, pelo computador e pelo vídeogame. Diante dessa nova realidade surgem questões que suscitam profundas reflexões acerca da função da família e da Educação Infantil na responsabilidade pela criança. Qual é o papel da família e o papel da mídia eletrônica, diante do pouco tempo e da ausência de espaços com qualidade para que a criança possa brincar? Quais são os benefícios e os malefícios de oferecer à criança (somente) brinquedos tecnológicos e de multimídias?
O brincar e as mídias podem possibilitar o desenvolvimento cognitivo, o da subjetividade, do raciocínio e da imaginação. Contudo, o excesso do tempo dedicado ao uso das plataformas digitais prejudica as oportunidades da criança de recrear-se e participar de atividades lúdicas e artísticas. Ressaltamos também que corporalmente, a criança está passiva e exposta podendo prejudicar a integridade da sua saúde. Segundo o Plano Nacional pela Primeira Infância: “Quando uma criança brinca, ela entra em contato com suas fantasias, desejos e sentimentos, conhece a força e os limites do próprio corpo e estabelece relações de confiança com o outro” (2010, p. 52). Além do crescimento subjetivo, a criança está também em constante evolução biológica.  O corpo é um registro vivo das ações do indivíduo sobre a vida e sobre o mundo e também das ações da vida e do mundo sobre o indivíduo. O corpo é presença, é por meio dele que a criança se apresenta ao outro e à existência. Se o corpo representa a criança diante da vida, ele precisa estar submerso nas diversas situações desafiadoras e promotoras de desenvolvimento, não em detrimento à expansão do subjetivo, mas contemplando a ideia de que, enquanto linguagem específica, o brincar, em suas diversas manifestações e dialetos brincantes é desafiador e fomenta o (des)envolvimento da criança em toda a sua integralidade.
Brincar de corpo inteiro é meio e fim, é o ponto de encontro da criança com ela mesma e com seus pares, é o ponto da resolução de seus conflitos e do confronto com seus medos, é o fio que desata os segredos e os mistérios da vida e das coisas. Brincar de corpo inteiro é o movimento dialógico, próprio das infâncias, que possibilita descobertas e aprendizados, é o alimento do imaginário e o desdobramento do desenvolvimento biológico e motor que está para além da própria “fisio lógica”. É uma dança externa que também organiza a internalização das coisas e dos saberes. Brincar de corpo inteiro é fazer desse corpo em desenvolvimento o templo de uma essência latente e vivaz.

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